Bossa Nova 50 anos
Em uma época de transformações políticas e sócio-culturais, uma necessidade ufanista começava a se mostrar presentes em todos os campos. No esporte, a conquista da Copa do Mundo na Suécia e Ademar Ferreira da Silva se destacando no atletismo; na dramaturgia, interpretações mais regionais e com menos influência européia; na comunicação, o rádio se dissipando pela massa e a televisão chegando para agradar a elite. Todas essas mudanças não deixariam de se mostrar na música.
Insatisfeitos com as influências estrangeiras e tristes melodias, os jovens do momento queriam mais. Queriam cantar a beleza do que viviam, a poesia, o amor; e foram aos poucos se juntando e formando um estilo próprio, dos cariocas morenos do sol de Copacabana.
Em 1956, a união de Vinícius de Moraes e Tom Jobim formou, entre muitas outras pérolas, a trilha sonora do musical Orfeu da Conceição, com a canção antológica “Se todos fossem iguais a você”. Dois anos depois, lançavam o LP Canção do Amor Demais, também da parceria Tom e Vinícius, e interpretado por Elizeth Cardoso que foi acompanhada pelo violão de um baiano até então desconhecido, João Gilberto.
A data de início da bossa nova poderia ser definida, pelos mais metódicos, como 10 de julho de 1958, com a gravação do 78 rpm “Chega de Saudade” de João Gilberto, no estúdio da extinta gravadora Odeon, na Cinelândia (RJ). Roberto Menescal, Ronaldo Boscoli e Carlos Lyra ouviam uma nova voz no rádio, um som que mudaria suas concepções de musica. \\\"Chega de saudade\\\" trazia tudo o que os jovens da classe média carioca buscavam: melodia suave e linear com letra impenetrável.
Todos imaginavam que o dono daquela voz entorpecente era um hippie louco. E quando finalmente o conheceram. Um susto. Um rapaz alto, engravatado, bem barbeado, cheio dos detalhes e com o violão de baixo do braço. Esse era o dono da voz mais comentada do momento. Mas por fim, acabariam se tornando amigos de música e vida, e até dividindo o mesmo apartamento.
Em um outro apartamento, não menos importante, na Av. Atlântida em Copacabana, aconteceram os mais ilustres encontros da bossa nova. Nara Leão abria as portas para os amigos e juntos, aqueles jovens compartilhavam novas canções, cada um com sua contribuição, melodia e letra, palmas e assobios, tudo se criando na melhor sintonia. Entre muito refrigerante, sucos de frutas e música, Chico Feitosa, Roberto Menescal, Oscar Castro Neves, Ronaldo Boscoli, Normando Santos, João Gilberto, Toquinho e muitos outros, ficavam horas inventando o que de mais encantador a música poderia trazer.
Dos shows universitários passando pelos pocket shows nos bares do Beco das Garrafas (nomeado assim por causa dos objetos arremessados pelos moradores da vizinhança devido ao barulho) a conquista do mundo. O encontro fundamental aconteceu no Carnegie Hall, em Nova York em 1962, e os olhares se voltaram definitivamente para o Brasil.
Nesse espetáculo, Luiz Bonfá, o conjunto de Oscar Castro Neves, Agostinho dos Santos, Carlos Lyra, Sérgio Mendes, Roberto Menescal, Chico Feitosa, Normando Santos, Caetano Zama, Ana Lúcia, Cláudio Miranda, Milton Banana, Sérgio Ricardo, Antonio Carlos Jobim e João Gilberto, além do violonista Bola Sete, a cantora Carmen Costa, o ritmista José Paulo e o pianista argentino Lalo Schiffrin fizeram a festa com o melhor da bossa nova, mesmo com o estado precário do áudio.
O gênero que tem influência do jazz e do samba, uma levada diferente, uma \\\"nova bossa”, começaria a ser adotado por músicos como Herbie Mann, Miles Davis, Cannonball Adderley, Charlie Byrd, Stan Getz e Frank Sinatra. No mesmo ano do encontro no Carnegie, a convite de Stan Getz, João Gilberto e Tom Jobim colaboraram naquele que se tornou um dos melhores álbuns de jazz de todos os tempos, Getz/Gilberto, levando o som para outros países.
Homenagens também não faltaram, mesmo sem o ritmo original da bossa nova, artistas famosos colocaram o nome em suas canções, o francês Eddie Gourmé, por exemplo, com “Blame it on bossa nova” e até o irreconhecível Elvis Presley na rumba “Bossa nova baby”. Influências em novos ritmos também foi um legado que a bossa nova conquistou e continua conquistando. A tendência teria reflexo até nos próprios brasileiros envolvidos do gênero, como o chamado acid jazz e o drum´n bass, que seriam revividos com o groove da bossa nova, reacendendo nomes como João Donato, Edu Lobo e Marcos Valle.
Novo século e a bossa nova comemora seus 50 anos “simbólicos” de existência. Viva e reformulada, o ritmo continua conquistando novos músicos e poetas, e perpetua um ritmo que saiu de dentro de casa para o resto do mundo. Bossacucanova, Bebel Gilberto, Fernanda Takai e Alisa Ono são uma pequena parte dessa nova geração que traduz bem essa eterna “nova bossa”.
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