Decisão difícil
postado às 17h08 por Luciana de Melo | 19 comentários
O alpinista brasileiro Bernardo Collares, de 46 anos, sofreu um acidente quando escalava o monte Fitz Roy, em El Chaltén, no sul da Argentina. Por uma falha no equipamento de rapel, ele caiu de uma altura de 20 metros, fraturou a bacia e teve uma hemorragia interna, de acordo com a alpinista que o acompanhava. Ela voltou para pedir socorro, mas levou dois dias até o povoado mais próximo.
Após análise de todo esse cenário e o tempo ruim na região, as autoridades avaliaram que as chances de sobrevivência do montanhista eram mínimas. Com a dificuldade de uma operação de resgate por causa do clima, a família compreendeu que seria melhor, portanto, deixar o corpo do brasileiro no topo do monte.
Resumida assim a história, a impressão que temos é de que esta foi uma decisão fácil. Com certeza não. Nem para as autoridades argentinas, nem para os familiares.
A médica que coordenava a operação disse que preparava uma carta explicando que a morte por hipotermia é uma das menos dolorosas e que ele está num dos lugares mais lindos do mundo para um escalador.
Li que Bernardo, antes de viajar, escreveu um bilhete dizendo: "As montanhas são uma espécie de reino mágico onde por meio de algum encantamento eu me sinto a pessoa mais feliz do mundo".

Conheci o monte Fitz Roy em abril/maio de 2008, quando fui com duas amigas, a Mônica e a Verônica, para a Patagônia argentina. Parte da nossa aventura foi acampar no Parque Nacional Los Glaciares, onde fica uma cadeia de montanhas, entre elas o Fitz Roy. O parque está localizado na cidade de El Chaltén, província de Santa Cruz, na fronteira com o Chile.
Uma das imagens marcantes, devidamente fotografada (acima), foi justamente a do pico nevado. O clima na região sempre foi ruim e considerado traiçoeiro. Quando fomos, havia neve no parque e não sabíamos se o tempo estaria melhor no dia seguinte ou não. Não sabíamos também se nevaria à noite. Dentro da barraca, o frio não me deixava dormir (mesmo com toda proteção) e minhas pernas doíam. Mesmo assim, o reflexo da lua cheia nos picos nevados compensou todo o “sofrimento”. Sentamos à noite num tronco, as três encolhidas, de braços dados, de frente para aquela imagem indescritível. E éramos só trilheiras naquele momento. Imagino a emoção de um alpinista.
Vendo de fora, é difícil imaginar qual seria minha reação à desistência do resgate se o ocorrido fosse com um irmão, um parente. Sempre acreditamos na possibilidade de um “milagre”. A companheira de escalada de Bernardo havia deixado com ele comida, bebida e um saco de dormir. Mas após cinco dias do acidente, a irmã do brasileiro e as autoridades argentinas decidiram, em acordo, apesar da melhora do clima, abortar o socorro.
Decisões.
Difíceis e necessárias.

Bernardo Collares
Mais imagens da minha aventura no Parque Nacional Los Glaciares:




THELMA GONZAGA DA SILVA - sexta-feira, 21 de janeiro de 2011 | 15h28
Mediante tantos acontecimento no nosso mundo, pessoas resgatadas com vidas após tantos dias soterradas no Hait, sem comida,sem agua... jamais deixaria de tentar ... apenas o Criador decide o fim da sua criação.
José Orlando Costa Junior - quinta-feira, 20 de janeiro de 2011 | 19h41
Nunca devemos desistir, acredito que esteja em paz, mas vale ainda o resgate ao menos para concientização dos amigos e familiares.
Sandro Villas Boas - terça-feira, 18 de janeiro de 2011 | 11h11
Interessantíssima a história, contudo, no meu entendimento, apesar do respeito aos demais, não conceberia decidir desta forma, ainda que com embasados dados técnicos/médicos. Sem apego ao materialismo ou ao corpo, acredito que o justo, ético, o moral e acima de tudo o humano seria empreender todos os esforços pela vida deixando a cargo de Deus a escolha da hora da partida. Se assim não for, começaremos a nos acostumar com ideias nas quais alguns acabam por decidir quando devem cessar os resgates de vítimas de catástrofes como as que tivemos recentemente se antecipando e destruindo o sobrenatural. Não se trata de superstição, crendices ou mesmo algum tipo de fanatismo religioso e sim de experiências reais onde o ser humano ,quando quase exauridas as esperanças, depois de dias debaixo de escombros, lamas ou a deriva no mar após desastre aéreo, são encontrados com vida. Não conheço a história com detalhes, todavia o que posso conceber pelo que se tem, é que nesta vida tudo tem um porquê e a exemplo da tragédia recente que estamos vivenciando, felizes são os homens que estão trabalhando no resgate das vítimas soterradas pela lama em Teresópolis e quão mais extenuante não será a felicidade espiritual daquele que, no cumprimento de sua missão, quando os indicativos mostravam a extinção da vida, ali pôde fazer parte do grande enigma da existência, trazendo de volta aquele tido como morto.
Ana Luz Peláez Molina - terça-feira, 18 de janeiro de 2011 | 10h54
Nossa... eu nao tería dessistido NUNCA!!!
eduardo aparecido dos santos - segunda, 17 de janeiro de 2011 | 11h50
Infelizmente a dor da perca, se sobrepoe. Mas, acho q nao devemos esquecer, que este acidente foi causado, por uma falha de equipamento.Acredito que deveria ser apurado,se fosse o caso responsabilizado os responsaveis. Será que pode acontecer novamente?
Luiz Carlos da Silva - segunda, 17 de janeiro de 2011 | 09h34
Apesar de todas dificuldades do resgate não deveria desistir tão rapidamente.Tudo é possivel para DEUS.....milagres acontecem veja só o caso de Teresópolis do senhor que ficou preso abaixo de quatro metros de terra , lama, viga e saiu vivo.
adriana alexandre de santana - 16 de janeiro de 2011 | 15h32
Lamento muito por esse acidente....E apesar da localização e a situação q a vítima se encontra,ainda devemos acreditar em um milagre,pois a ESPERANÇA É A ULTIMA Q MORRE!!!!Espero q tudo acabe bem!!!Abraços à família!!!
Rogério Mondin Alabarse - 16 de janeiro de 2011 | 13h49
Linda história Luciana... me fez pensar numa série de coisas. Esse homem conseguiu o que todos buscamos: uma morte digna!
EDINÍLIO DA SILVA - sábado, 15 de janeiro de 2011 | 14h57
Uma perda para o alpinismo, e o bom gosto. Que ele seja muito feliz, aonde estiver!!!
Sheila Rios - quarta-feira, 12 de janeiro de 2011 | 13h29
Dificil decisão mesmo.... Eu não conseguiria mais dormir pensando que ele pudesse estar vivo e eu não me esforcei em resgata-lo. Não julgo, mas pensei muito e me coloquei no lugar, eu não conseguiria encontrar serenidade se não tivesse esgotado tudo.
Luciana de Melo - terça-feira, 11 de janeiro de 2011 | 21h13
A Mônica Farias dos Santos, aqui nos comentários, é uma das amigas queridas que estavam comigo nesta viagem. =)
Luciana de Melo - terça-feira, 11 de janeiro de 2011 | 21h13
Verdade, Débora. Falamos sobre a minha primeira aventura mochileira. Mesmo tendo consciência de as chances de sobrevivência serem quase nulas (ou totalmente), não dá pra imaginar o que é desistir e deixa-lo lá...
Idelise Martins da Costa - terça-feira, 11 de janeiro de 2011 | 13h45
ENQUANTO PROFISSIONAL DA SAÚDE Q ESCOLHEU A PROFISSÃO PARA SALVAR VIDAS, É UMA DECISÃO DIFÍCIL, MAS NADA COMPARADO A FAMÍLIA, PENSAR SE DEPOIS AQUELA DECISÃO VIRÁ COMO CULPA: " E SE TIVESSE TENTADO"...É DIFÍCIL.
Mônica Farias dos Santos - terça-feira, 11 de janeiro de 2011 | 09h08
É, Luciana. O frio próximo da base da montanha, mesmo com um saco de dormir que suporta até 10ºC negativos,doia. Gostei demais do seu texto, e senti ainda mais pela impossibilidade de resgate.
Paulo Castro - segunda, 10 de janeiro de 2011 | 19h05
ção. A blibia diz que não devemos chorar pelos que se foram pois, se eles viveram sem pregar o mau, Deus, esta cuidando deles. Quer médico melhor que esse...
Paulo Castro - segunda, 10 de janeiro de 2011 | 19h01
Tempos atrás, o homem quis inventar um jeito de ver Deus e ele os diciplinou, hoje apenas queremos com nossas pernas exergar o mundo como deus vê quando de vez em quando desce a terra para ver a maravilha da sua cria_
Débora Didonê Sanches - segunda, 10 de janeiro de 2011 | 18h13
a vista dos picos nevados de El Chaten, na Argentina', afirma a radialista Luciana de Melo. A última foto do teu post, da barraca, também foi publicada na revista (edição de agosto de 2008): http://tinyurl.com/cyv8a5 Abração!
Débora Didonê Sanches - segunda, 10 de janeiro de 2011 | 18h11
Coincidentemente, foi sobre essa sua experiência no Chile que falamos em uma reportagem para qual a entrevistei, publicada na revista Vida Simples. Escolhi justamente esta tua fala: 'Mesmo em um temperatura abaixo de zero, foi indescritível contemplar...
Débora Didonê Sanches - segunda, 10 de janeiro de 2011 | 18h11
Que bonito você se preocupar em fazer um post com esse tom, da visão de quem sabe o frio que passou na região sem sequer chegar à base da montanha em que Bernardo Collares ficou preso.
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