Crônica de uma escuridão
postado às 12h28 por Cristiane Tavares | 15 comentários
Ontem choveu muito em São Paulo. Eu chegava em casa por volta das 16:30 horas. Foi o tempo de pegar o elevador, chegar ao décimo andar e a luz acabar. Ainda estava claro, consegui encontrar as chaves. Porém, muito rápido o dia se fez noite e a escuridão tomou conta da sala.
Aquele espírito de jornalista se fez presente e tentei descobrir o que teria acontecido. Mas...como fazer isso? Peguei meu mp3 e sintonizei no rádio. Assim que eu consegui encontrar alguém falando sobre o assunto, a bateria acaba. Já xinguei a mãe de alguém, mas, nesse breu, acabei pedindo desculpas. Melhor não brincar com isso. Minha única companhia nessa escuridão era a Mel, que dormia tranquilamente num sono cheio de biscroks.
Que fazer então? Computador não liga. Rádio e TV não ligam. Recarregar baterias nem pensar. Andar pela casa, só guiada pela minha intuição de 32 anos morando no mesmo lugar. Peguei um cobertor e deitei-me ao lado da Mel, esperando a Eletropaulo acabar o serviço. O tempo foi longo. Longo. Loooongo.
No silêncio, passei a prestar atenção em certas coisas. Há tempos não escutava as batidas do meu coração. Ontem as escutei. Fiquei um minuto só contando os tun-tuns, como numa hipnose, e só despertei com um clarão de um farol de carro, refletido no teto da sala. Do coração, passei a acompanhar o movimento daquelas luzes, que corriam pelo teto como se fugissem de alguém e sumiam pelas paredes. Pensei nessas pessoas que estariam voltando para suas casas após o trabalho, e também se sentariam em alguma escada esperando a luz retornar e nesse meio tempo, colocariam o papo em dia com aquele vizinho sumido.
De repente, outro clarão. Um raio forte que refletiu na carinha assustada da Mel. Peguei-a no colo, embrulhada num cobertor, e fomos à janela acompanhar o fenômeno natural pelo vidro. Ouvia a respiração dela ofegante. Depois acalmando, relaxando o corpinho e ficando sonolenta de novo. A orelhinha dela esbarrava na minha. Só no silêncio é possível ouvir a respiração de um cachorro, as batidas do nosso coração e os barulhos da cidade. Coisas que passam despercebidas no nosso dia-a-dia.
Outro raio e esse consegui ver refletido no copo de cristal da estante. Há quanto tempo eu não usava aquele copo! Fiquei olhando para ele e lembrando de quem o ganhei. Bateu saudades. Voltaram as recordações. E o breu continuava, cada vez mais breu.
Me deu vontade de escrever. Solução? Vela. Acendi uma e peguei papel e caneta. Nesse clima já olhei para a caneta como se ela fosse uma pena e voltei à época medieval. Escrevi breves linhas dessa crônica , mas a luz fraca incomodou meus olhos. Fechei-os e só ouvia o barulho do vento nas frestas das portas. Lembrei de todas as cartas que eu escrevia antes de existir o email. Era bem mais interessante. E mais humano.
Sem música, sem livro, sem vozes, o silêncio começa a fazer barulho. Barulho dentro da minha cabeça, e começo a pensar nas pessoas com quem deixei de falar nesse dia. Pensar nas palavras que deixei de dizer. Nos abraços que deixei de dar. E os raios caindo, e os carros passando, e a Mel dormindo, e a fome chegando. Ouço o barulho do meu estômago. Já são quase 20:00 horas e a luz não volta.
Mas confesso que essa escuridão e o silêncio foram necessários para mim. O pensamento foi longe, houve uma espécie de “balanço” final do dia e o retorno de lembranças antes adormecidas. Acredito que todos nós precisamos desses momentos. Um blecaute na rotina. Um teste nos cinco sentidos. Uma parada obrigatória nos boxes dos pensamentos. Desacelerar. Desligar a tecnologia que nos cerca para poder realmente entender os sentimentos. E apenas olhar um relâmpago, ouvir os batimentos do coração e acariciar um ser que você ama para agradecer por mais um dia de vida.
beijo a todos...
posts anteriores: http://www.novabrasilfm.com.br/blog/cristiane-tavares
visite também http://cristiane-tavares.blogspot.com
CARLOS COELHO BONFIM - quinta-feira, 23 de junho de 2011 | 23h57
PARABÉNS PELO TEXTO,AINDA BEM QUE NÃO TEM MEDO DO ESCURO.COM CERTEZA SUA REFLEXÃO PODERIA SER BEM MAIS PROFUNDA.
Paulo Castro - quarta-feira, 22 de junho de 2011 | 19h26
boa noite Cristiane, otima crônica, situação emocionante, uma pausa para ver a vida no escuro...
Ana Paula da Silva Torres - quarta-feira, 22 de junho de 2011 | 15h10
Nunca tinha lindo nada do blog, mas o título me chamou a atenção 'Crônica de uma escuridão'! Fiquei emocionada com seu texto! Obrigada por compartilhar! :)
Guilherme Lucas Silva Santos Paim - terça-feira, 21 de junho de 2011 | 15h39
Parabéns! Você é um tipo raro de mulheres da atualidade que domina de forma tão espontânea as palavras que circundam seus pensamenstos. Me dói saber que são poucas as pessoas que sabem o verdadeiro valor da literatura para suas vidas...
MARINA APARECIDA DE OLIVEIRA LIMA - segunda, 20 de junho de 2011 | 17h40
talves fossem necessários vários 'blecautes' durante um certo período, para que fizéssemos esse balanços em nossa vida e fossem dado o devido valor às coisas importantes.
Alessandra de Souza Figueiredo - segunda, 20 de junho de 2011 | 12h09
Que lindo! Quase chorei lendo seu texto! ^^ Acho todos poderiam lê-lo para a gente tentar humanizar mais as pessoas! Parabéns!!!!
Elidayana da Silva Alexandrino - 19 de junho de 2011 | 23h02
Olá Cristiane, suas palavras me fizeram lembrar de um apagão nada legal, quando parte do Brasil parou de funcionar em 2009, estava num trêm, nesse momento parei para refletir sobre a minha vida. O escuro realmente nos clareia as ideias!
Juliana Domingos da Silva - sexta-feira, 17 de junho de 2011 | 19h58
Cris, adorei! Vou colocar na minha rotina "apagões da Jubs" (uma vez por semana), quem sabe assim consigo desacelerar e sentir a Vida A VERDADEIRA FELICIDADE!! Valeu Cris!! bjao
Elizangela Iolanda de Oliveira Toledo - segunda, 13 de junho de 2011 | 17h40
Tai uma coisa que sempre curti, qdo acaba a energia! Nunca fui fã de tv e afins, qdo acaba dá pra escutar melhor os sons do mundo, me faz ir pra bem longe e ver melhor ao meu redor.
gabriela barbara rodrigues de lima - sexta-feira, 10 de junho de 2011 | 18h01
Ainda bem que vc estava acompanhada, pelo melhor amigo do homem né ?! Ótima crônica Cristiane
Rosilene Pego de Freitas - sexta-feira, 10 de junho de 2011 | 15h59
Realmente Cris, acho que todos nós precisamos passar por isso, até pra dar valor ao que temos todo dia e que muitas vezes não percebemos! Parabés pela Crônica! Beijos.
Renan Silva Bispo - quinta-feira, 09 de junho de 2011 | 21h39
É verdade ! passei por isso por outros motivos e muito bom uma sensação muito boa
Elaine S Dias - quinta-feira, 09 de junho de 2011 | 21h18
Puxa... que inveja!!! Que vontade que deu de sofrer um "apagão" assim Cris! Parabéns pela crônica!!! Acho que vou provocar um por aqui rs!!!
Clodoaldo Barbosa de Mattos - quinta-feira, 09 de junho de 2011 | 11h10
Olá Cristiane. Bela crônica. Precisamos mesmo desses "apagões" para dar-mos um tempo na correria do dia-a-dia. Valorizarmos a natureza e seus fenômenos e, por consequência as pessoas ao nosso redor. Um grande abraço e mais uma vez parabéns pela crônica.
Fabiana Liberato de Souza - quarta-feira, 08 de junho de 2011 | 23h42
Pois é Cristiane, as vezes precisamos dos fenômenos naturais e dos não naturais para desacelerarmos um pouco e sentir o mundo a nossa volta.
digg
delicious
facebook
google
rec6
twitter
yahoo my web
stumble upon




