Conto um conto
postado às 14h12 por Cristiane Tavares | 5 comentários
Era uma vez, uma menina. Ela tinha 10 anos. Estudava num bom colégio. Não era rica. Classe média. Muito dedicada. Nunca repetiu nenhum ano. Seus pais não tinham trabalho com ela. Era uma menina responsável. Tímida. Mas chegou a ser retirada da sala de aula por falar muito. Diante da diretora, silêncio. Diante dos coleguinhas, uma palhaça. Em festa de família, comportada. Aos 15 anos, com uma amiga “carne e unha”, começa a sair. Matinê. Seus pais não a deixavam sair a noite. Razões óbvias. Na praia, uma turma inseparável. Todos da mesma idade, começam os romances. Rodrigo, Daniel, Fabio, Guilherme, Gustavo. Paixões avassaladoras. Cartas, não emails. Telefonemas intermináveis. Contas igualmente intermináveis. Nenhum beijo na boca. Apenas abraços e cafunés. Aos 16 teve que mudar de colégio. Muitas mudanças. Amigos perdidos. Amigos novos. Novos, riquinhos e irresponsáveis. Foram 3 anos nesta escola. Três anos de muito estudo. Ensino puxado. E dificuldade para pagar a mensalidade. Livros emprestados. Apostilas xerocadas. Os novos amigos passavam férias na Disney. Durante o ano letivo, destruíam o patrimônio da escola. A menina seguia inconformada. Tanto dinheiro, tanta falta de educação. Mas seguiu forte, em frente, recuperada. Presenciou atos de vandalismos. Denunciou-os. Detestava impunidade. Começa a solidificar sua personalidade. Aos 18, entra na faculdade. Novos amigos. Novos desafios. Novos hábitos. Não era preciso pedir para ir ao banheiro. Uma sala com 105 alunos. Artistas, cantores de samba enredo, maconheiros, malucos, e gente que queria estudar. Um namorico surge novamente. Não vai pra frente, ela tinha amadurecido, ele não. Começam as ofertas. Bebida. Cigarro. Drogas. Nada disso a agradava. Ao invés da cerveja, ela ficava no suco de melancia. Nunca cedeu às brincadeiras de que “água enferruja”. Tinha personalidade forte. “Dane-se quem discordar de mim”, dizia ela. Por isso mesmo, não fazia parte das grandes rodinhas. Por isso mesmo fez poucos, mas verdadeiros amigos. Concluiu seus 4 anos de faculdade. Formou-se. Viu os amigos se casarem. A amiga “carne e unha” também. Viu os amigos indo embora para outros países. Mas novos vieram em seus lugares. Namorou, namorou, namorou. Desmanchou, desmanchou, desmanchou. Arrumou emprego fixo. Faz o que gosta. Resolveu viajar sozinha. Viu que é a melhor coisa do mundo. A amiga “carne e unha” se separou. Outros também estão seguindo o mesmo caminho. A menina, agora uma mulher de 30, tem opinião bem formada sobre tudo. Usou tudo que passou na vida como aprendizado. Viu que dinheiro não compra felicidade. Comprovou que nem sempre quem tem dinheiro, tem educação. Aprendeu que não é preciso uma aliança no dedo para ser feliz. Ser feliz é ter a saúde intacta. Ter uma mente ocupada. Ter quem amar. Esta mulher sente saudade do passado, mas não vive dele. Tem planos para o futuro. Mas está desiludida com as pessoas. Muita maldade nesse planeta. Muita maldade entre seres chamados humanos. Humanos? São é “bárbaros”, diz ela. Não há nada de “humano” em matar os próprios pais. Não há nada de “humano” em abandonar crianças em sacolas plásticas. Não há nada de “humano” em largar um animal de estimação na rua, passando fome e frio. Não há nada de “humano” nas guerras entre nações. Isso tudo a deixa inconsolável. Mesmo assim, é uma boa pessoa. Os amigos dizem. (qualquer semelhança com a realidade, não é mera coincidência) contato: ctavares@novabrasilfm.com.br
Cesario Teixeira - segunda, 02 de fevereiro de 2009 | 19h48
Tô achando que é sua autobiografia hein ! beiju
Kleber Brito - quinta-feira, 29 de janeiro de 2009 | 15h28
Oi Cris!! Acho que eu ja vi essa menina em algum lugar. Parabéns pelo Blog e parabéns pra você por ser essa pessoa maravilhosa e talentosa! Beijo
Andre Soliva Ribeiro - terça-feira, 27 de janeiro de 2009 | 18h26
A simplicidade de enxergar o óbvio é a forma mais rebuscada de entender a vida. Parabéns Cris pela sua imensa capacidade de escrever.
Fabiana Matias dos Santos - terça-feira, 27 de janeiro de 2009 | 17h39
Que bonito!!! Simples e comum à todos... Parabéns!
Elineide Xavier de Oliveira Mari - terça-feira, 27 de janeiro de 2009 | 14h27
Achei bárbaro o conto(realidade). Se todos fossemos como ela não haveria tanta maldade e irresponsabilidade no nosso planeta. Em compensação, agindo como ela crescemos moralmente e aprendemos a ser fortes, a ter coragem e a conquistar verdadeiros amigos.
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